No país da gente que vive entre nuvens
Jornada por um enclave de rugas colado à cordilheira sul-africana do Drakensberg e à beira das terras zulus. Um país imponderável de gente que atravessou África para estar mais próxima das nuvens.
Texto e Fotos Humberto Lopes
Se não fossem as montanhas, entrava-se no país de manhã por uma porta e saía-se à tarde por outra. Circulamos por um pequeno enclave que provavelmente não existiria não fora o capricho orográfico de rugas a seguir às planuras que se alongam desde Bloemfontein, a principal cidade da província sul-africana do Free State.
À volta de Maseru, a capital, que fica junto à fronteira sul-africana, ainda o relevo se faz de linhas suaves – há planícies que se estendem sobretudo para sul e as montanhas erguem-se lá para o interior do enclave, onde se situam os pontos mais elevados. Ali, o pico Thabana Ntlenyana, o maior de África a sul do Kilimanjaro, é uma espécie de sentinela erguida quase no limite do país, junto à cordilheira do Drakensberg e ao KwaZulu-Natal.
Deixamos para trás Maseru, uma pequena cidade sem nada que a distinga das suas similares sul-africanas e, à medida que vamos subindo, imergimos pouco a pouco no que é o cenário das identidades do Lesoto – o acidentado relevo orográfico, as características climáticas (nas montanhas que se cobrem de neve durante o Inverno austral a temperatura pode descer a quase vinte graus negativos), a atmosfera inequivocamente rural e uma paisagem de montanha em que escasseiam árvores e bosques – salvo nas áreas dos parques nacionais.
E é nesse ambiente de estradas de terra, de relevos feitos de pedregulhos que se tornam ouro quando tingidos pelo sol poente, de terras vermelhas lavradas por arados artesanais deixados às vezes à beira dos caminhos, que damos com gente parada a olhar para nós, como se estivesse ali à nossa espera para nos saudar, para nos dizer na língua sesoto palavras que não precisam de tradução.
Veio de onde esta gente de cabeças cobertas por chapéus cónicos e enrolada em grossos cobertores? Veio de onde esta gente que nos aguarda à beira de aldeias arrumadinhas ou que surge de rompante do meio das pedras? Dizem as crónicas que terão feito caminho como outros povos bantu vindos do norte para se espalharam por vários territórios da actual África do Sul, designadamente pelas terras planas do que é hoje o Free State, onde habitam mais basotos do que propriamente no dito reino do Lesoto, o seu domínio político. A turbulenta história destes povos acabou por levá-los a procurar refúgio nas montanhas, onde se deixaram ficar, formando aí um reino e moldando costumes e cultura de acordo com o ambiente natural característico de paragens montanhosas. Cruzamo-nos com eles por toda a parte, nas planícies e em regiões de alta montanha – e consoante a estação do ano e temperaturas vigentes, bem entendido, lá vão enrolados nos seus cobertores estampados e seguros com um alfinete, a cabeça coberta pelos usuais chapéus cónicos – os mokorotlo.
Paisagens geometrizadas
O relevo montanhoso faz abrandar aqui e ali a média de velocidade do pequeno utilitário que alugámos em Joanesburgo. Fazemos figas para que este besouro vermelho não nos deixe ficar mal quando chegarmos às picadas lá em cima. Confiamos nas informações que colhemos em Bloemfontein e confirmámos em Maseru.
Hoje de manhã as estradas eram melhores, andávamos por terras mais desenvolvidas, como se diz – nestas paragens o assunto do desenvolvimento é sempre uma cantilena de timbre que parece um tanto religioso. Agora, e depois de deixarmos para trás Maseru seguindo por estradas que nem são nada más, o acaso das primeiras impressões da capital – cidade pacata, sem nada do frenesim inquietante de Joanesburgo – quase desapareceu da memória. Mas uma pergunta se mete diante do viajante, que encontrou também comunidades de basotos no vizinho Kwazulu-Natal, inclusive uma pitoresca aldeia-museu, onde andou a provar uma bebida fermentada que passa por ser cerveja de milho e a ouvir música tocada por gente de ar triste e cansado. A pergunta é se faz sentido o país Lesoto. Num jornal que anda a apanhar pó no banco de trás lemos opiniões contrastantes e alertas de que a (in)viabilidade económica do Lesoto e a globalização (mau grado, pelos vistos, os arautos dos seus funerais) apontam para um único caminho. Se o Lesoto pode sobreviver como um estado-nação ou não será coisa para muito matutar, mas não é significativo que umas quantas vozes românticas nos lembrem que o canto dos pássaros é mais alegre fora das gaiolas, mesmo quando são douradas ou as põem ao sol para enganar as aves?
Bem, vamos à vida rugas acima. Para além das estradas asfaltadas, que no mapa se intercalam com outras menos coloridas, temos pela frente um bom número de caminhos em terra, e alguns são até daqueles que costumam ser os mais cénicos, os mais ambicionados pelas câmaras fotográficas. Dizem que não há almoços grátis – a não ser para quem pode, de acordo com o status social, e disso faz cartilha para convencer os demais da naturalidade do fenómeno. O que seguramente não há é paisagens grátis: é preciso malhar os ossos nos solavancos à beira de fotogénicos precipícios para se avistar paisagens de tirar o fôlego.
Lá vamos subindo. Passamos a estimável, mas um tanto artificial, Thaba Bosiu Cultural Village. Dois, três mil metros. Planos azuis atrás de planos azuis cada vez mais diáfanos no horizonte. Mas não em todos os pontos cardeais: para sul, na direcção de Port Elizabeth, parece haver mais picos afogados em nuvens escuras. Paisagem geometrizada, um Braque de puzzles de arestas, triângulos de pedra como os dos chapéus locais. Às vezes, também, longas linhas horizontais, entrecortadas por silhuetas de árvores ou de pastores caminhando perto do gado metido em barrancos ou pendurado na crista de colinas.
São também muitos os ermos onde rareia gente. Nem um caminhante de acaso, um pastor, uma alma perdida entre as nuvens que abraçam as altas paisagens do Lesoto. Aí quedamo–nos sós em lugares como o miradouro de Mafika Lisiu, a 3100 metros., lugar ventoso e gelado que se debruça sobre a paisagem vertiginosa de um vale que parece interminável e desaparece gradualmente num infitito de sombras da cor da terra.
À medida que se sobe, os bosques vão rareando, as árvores fazem-se solitárias, exiladas numa solidão de altitude. Seguimos primeiro em direcção a nascente, como se fôssemos para o Drakensberg, pela estrada A3, que avança em intermitentes serpentinas, e viramos depois, subitamente, para sul. Nestes povoados de faroeste também há cabeças cobertas pelos tais chapéus cónicos que emulam a fisionomia das montanhas do enclave. Ou é o contrário? A pergunta renasce como obsessão e faz-nos lembrar a história do ovo e da galinha na versão de Clarice Lispector – a do misterioso texto que nem ela sabia explicar.
Procuramos o Malealea Lodge e para lá chegar, já à hora do crepúsculo, cruzamos uma passagem de montanha: Gate of Paradise. A luz já não deixa ver muito, mas a dois mil e trezentos metros, aquele vazio que sempre voa com as imensidões é-nos trazido por uma aragem gelada. A primeira etapa no frio coração das montanhas do Lesoto.
Faltou neve à paisagem, mas não granizo
O meu companheiro de viagem põe-se à cata de negócio. Leva o braço de fora, imune ao frio que entra pelo automóvel e, bom, continuamos a subir. No Lesoto ou se sobe ou se desce. Agora, subimos, subimos, e a certa altura passamos a rodopiar por estradas de terra.
O negócio agora faz-se com um chapéu usado. Este não é cónico. Tem um apêndice de palha retorcida que parece uma cauda de símio. Mais adiante negoceia-se um cajado de pastor, um molamu, um varão ornamentado de entalhes e cores. O rand sul-africano é uma arma. O pastor, um miúdo resguardado por uma manta, fica para trás a sorrir. Um acontecimento de vida.
Continuamos a subir. Numa curva apertada surge um nicho de santa. Voltamos atrás, há um espaço para estacionar perto. Nossa Senhora de Fátima, nem mais: crenças globalizadas em territórios de antigos animismos. Não estamos nos Andes, ocorre-nos, mas a Pachamama, a mãe terra, veste tantas peles e responde por tantos nomes: arranjamos palavras para os mistérios, para reinventar o que escapa, ou pretende escapar, à Razão.
Estamos quase a chegar ao fim do ano, ao Verão austral mas no Lesoto, quando é Inverno, a paisagem é de uma originalidade quase sem par em África: os telhados das cubatas cobertos de neve, as cascatas congeladas. É esse um cenário muito comum pelas terras altas do país, que são quase todas, afinal. Antes de chegar a Semonkong, a dois mil e tal metros de altitude, voltamos a avistar ao longe os picos habitualmente nevados no Inverno de Thaba-Putsoa e de Thaba-Tseka.
A ameaça de tempestade no horizonte é constante. Tal como uma memória fugaz da leitura de Annemarie Schwarzenbach nas suas descrições das passagens montanhosas do Iraque e do Irão e de um trecho acerca de uma montanha áspera da Anatólia que enche algumas páginas de Inverno no Próximo Oriente. É um trecho em que ela descreve a travessia de um colo de montanha no meio de uma tempestade. Não se perde pela demora, veremos adiante. Está-se no Lesoto, circo de montanhas e de súbitos temporais. E quem anda à chuva corre o risco de se molhar, seja lá em que parte do Mundo se andar em cavalgadas. E activas como estão as birras das meteorologias de montanha, o cenário de altitude ganha composição, textura, movimento, com súbitas barragens de granizo gélido, cortante como agulhas. São restos do Inverno austral, que ainda há poucas semanas enchia de neve os telhados das cubatas do Lesoto.
Em Semonkong faz frio, mesmo com o sol a brilhar. Estamos a quase três mil metros de altitude e decidimos ir até às Maletsunyane Falls, umas quedas de duzentos metros de altura. O tempo é de Primavera, o caminho pedregoso, entre ravinas de postal. Lá em cima, diante das cataratas, há um céu de chumbo a coroar o verde das montanhas. E uma reverberação de luz inquieta. Escurece, de repente, e uma súbita rajada de vento frio antecipa o grito de Maleia, o guia: há que regressar de imediato. O homem faz o cavalo dar meia volta e lança-se a trote entre as escarpas e logo depois a galope pelas colinas que nos separam do lodge. A mim parece-me um galope suicida. Em segundos uma saraivada furiosa faz os cascos das montadas começarem a resvalar sobre o cascalho húmido. Ficamos encharcados e gelados enquanto tentamos não perder de vista Maleia no trilho já coberto, entretanto, de granizo. O galope ao longo do precipício e a sela molhada fazem-me escorregar para o abismo que cresce debaixo das patas do equídeo. Sempre no último instante um íman misterioso iça-me do desastre. Chegamos ao Semonkong Lodge ao fim de uma meia hora, enregelados, a tremer de frio e a pensar como o Mundo pode tornar-se irreconhecível enquanto o diabo esfrega um olho. É uma das muitas coisas que se aprende serem triviais no reino de rugas geométricas do Lesoto e de gente que vive entre nuvens.
