Malaca é um dos símbolos mais eloquentes do encontro entre o Oriente e o Ocidente, o ponto de chegada de séculos e séculos de profícuos encontros culturais
Texto e fotos Humberto Lopes
Dez anos depois, ficou decidido o mesmo percurso e o mesmo meio: um autocarro com origem no grande terminal de Bersepadu Selatan, em Kuala Lumpur, em direcção a Malaca. Ainda esteve em cima da mesa uma alternativa, a poesia do batuque ferroviário até Tampin e depois uma hora num autocarro regional até Malaca. Mas o clima abafadiço da península malaia confinou as veleidades a pó: iria o viajante meter-se em trabalhos e calores, sobressaltos de horários e cocktails de temperatura e humidade capazes de fazer qualquer mortal sonhar com as terras altas das montanhas? Não. Afinal, o transporte rodoviário na Malásia é, geralmente, de primeira água – muitas vezes, até, uma espécie de frigorífico ambulante, quase a requerer camisolas de gola alta e cachecóis. E quando se tem na mão um pássaro, para que alimentar devaneios com os que andam a voar?
Seria Malaca ainda a mesma? Como Património Mundial classificado pela UNESCO, era garantido que não teria podido modificar-se por aí além, ainda que, não obstante a fixação de condicionamentos nas zonas ditas históricas, pode sempre um ou outro deslize escapar às regras. Mas os dias que correm são de lições amargas. O mal poderia emanar até mesmo de tal ambivalente classificação e aí Malaca não escapou à maldição, à semelhança de tantos outros lugares que figuram nas listas da UNESCO: a agitação turística orgíaca, sobretudo durante os fins-de-semana, quando avalanchas de autocarros despejam visitantes de dois dias vindos de Singapura. Aquela era uma das ideias e curiosidades que levava, geradas e amadurecidas desde visitas anteriores, cerca de uma década antes. As outras três recordavam os jantares numa tasquinha chinesa perto de Little India, o mais belo templo taoista de toda a Malásia e arredores, o Cheng Hoon Teng, e moçoilas de islâmico hijab fazendo-se fotografar ao lado da figura de cartão do famoso pirata Afonso de Albuquerque.
A mestiçagem como futuro do Mundo
Mas o que tem esta Malaca, que foi, no século XVI, conquistada e ocupada pela pirataria portuguesa e que viveu as mais ricas atribulações históricas, antes e depois? Que muito antes de Albuquerque recebeu o muito viajado almirante chinês Zheng He? Que desde muito antes do século XVI, muito antes da lusitana Flor de la Mar se afundar ao largo carregada de tesouros saqueados, era um entreposto frequentado por uma vasta plêiade de comerciantes dos quatro cantos do Oriente? Sim, a localização estratégica no Estreito (de Malaca), com a ilha de Sumatra do outro lado, não lhe dava só importância política: a intensa actividade comercial atraía gente diversa e muito variada mercadoria trocava ali de mãos. Malaca era um próspero centro de comércio que reunia gentes de todo o Oriente, canela do Ceilão, cerâmica da China, tecidos do Gujarate, especiarias das ilhas do Mar de Banda, das Molucas e da Índia. A sua riqueza e valor estratégico acabou por atrair a cobiça do expansionismo europeu: primeiro os portugueses, que foram interromper antigas dinâmicas comerciais entre chineses, turcos, árabes do Médio Oriente e comerciantes da Índia, e ali dominaram de 1511 a 1641, depois os holandeses e, finalmente, os ingleses. Eis o que, sobretudo, determinou a classificação da UNESCO: Malaca é uma esplêndida soma disso tudo, um mundo construído sobre um labirinto de encruzilhadas, o resultado de contínuos encontros culturais, de diálogos entre povos e culturas, símbolo da mestiçagem que é a essência das sociedades e futuro do Mundo, não obstante a ilusão dos nacionalismos. Em breves palavras, o argumento que firma Malaca como património universal releva sobretudo a sua importância como privilegiado local de encontro entre o Oriente e o Ocidente.
A matriz chinesa prospera na península malaia
Voltemos às histórias, à primeira de todas elas. Comecemos pela do tasco e fica já contada uma parte da outra história mais geral, uma história que se estende a toda a península e a explica com eloquência. A Malásia é feita social e culturalmente de três culturas, a malaia, a indiana e a chinesa, e a sua gastronomia, como tudo o resto, reflecte essa variedade e a invenção que resultou da contínua interacção entre os seus componentes. Por tal razão, no curto espaço de meia dúzia de passos damos com uma variedade de casas de comer e de expressões gastronómicas que espelham um mosaico polícromo de comunidades culturais. Bom, o pequeno restaurante lá estava, na mesma esquina, sem nome, as mesmas mesas, a mesma cozinha simples à vista dos comensais. A senhora Ling Huang logo foi dizendo que, com os pedidos que tinha, e a gente à espera no passeio para os take away, demoraria bem uma hora a despachar mesmo uma coisa tão simples como um mee goreng vegetariano. Nenhum problema com a espera, acedi: tinham passado quase dez anos, não era mais uma hora que iria perturbar o mundo. E fui-me, entretanto, para a vizinha Little India petiscar coisas de atear incêndios e chamar bombeiros, à espera da hora aprazada para o mee goreng. O pouso em Little India foi também um regresso, o retomar dos sabores coloridos das comidas indo-malaias, parte de uma cultura importantíssima para a identidade da Malásia, embora não tanto quanto a cultura peranakan pesa na história cultural de Malaca. Esta é uma cultura ímpar que vale mil parêntesis: o termo peranakan abrange a extraordinária experiência cultural e social da comunidade de chineses nascidos na península malaia, Singapura, Indonésia e Tailândia e a cultura peranakan envolve mestiçagem entre elementos ancestrais chineses e elementos locais, malaios, na sequência da imigração das províncias do sudeste da China, Cantão e Fujian, no séc. XV. O forasteiro pode entender toda essa história, que se desenvolveu de forma brilhante em Malaca e na ilha de Penang, no Baba-Nyonya Heritage Museum, e entrever aí também uma resposta à pergunta que se terá colocado no momento da abertura da China, no final dos anos 1970, aquando do consulado de Deng Xiao Ping: por que são os chineses tão dados à prosperidade e à invenção sempre que não os contêm amarras?
À volta da Chinatown, vozes taoistas, azulejos lusitanos
O casario e a animação das ruelas da Chinatown são dia e noite uma das faces mais expressivas da dimensão multicultural de Malaca. A arquitectura peranakan predomina sobretudo na rua Tun Tan Cheng Lock, e é também por essas bandas que vamos encontrar a mesquita Kampung Kling, de feição hindu (foi edificada por imigrantes da Índia) e cuja azulejaria se diz ser de origem portuguesa, e um punhado de templos, entre eles o Templo das Nuvens Verdes, o Cheng Hoon Teng, o mais antigo templo taoista da península malaia.
Aberto ao culto taoista, budista e confucionista em simultâneo, o Templo das Nuvens Verdes é um dos mais frequentados, sempre envolto em aromas de incenso e ajaezado de flores e pequenas chamas ardendo em torno dos ícones e entre tons de vermelho, negro e dourado. Por vezes ecoam ao fundo sons de erhu (um instrumento chinês antigo semelhante ao violino) ou gongos e vozes de cantos que parecem vir do meio das nuvens de algum recanto celestial. Este Cheng Hoon Teng acaba por tornar-se um lugar de peregrinação diária para quem se detenha uns dias em Malaca e será justo e assisado que assim seja: o belo Templo das Nuvens Verdes é, juntamente com o taoista Guan Di, na chinatown de Kuala Lumpur, um dos mais atmosféricos da Malásia.
A pé, por aquele rio acima
Não, não eram apenas quatro as curiosidades que moldaram este regresso a Malaca. Havia uma quinta (ou provavelmente até mais) e esta acendeu-se como um relâmpago na segunda noite: o andarilhar desde a foz até à imersão do sunghai (rio) Melaka nos arrabaldes rurais da cidade – em tardias horas nocturnas para escapar ao embaraço do clima equatorial. Sim, preferencialmente madrugada dentro, ou muito ao fim da tarde. Diríamos “pela fresca”, se tal fizesse sentido num clima equatorial: a temperatura e a humidade pouco variam e as horas nocturnas valem sobretudo pelo sossego. O sunghai Melaka está amansado, enjaulado entre passeios de pedra e betão e a caminhada pode fazer-se sempre ao longo das margens. O rio está amansado, pois, e nada resta neste trecho do cenário que Fernão Mendes Pinto terá presenciado. Nem vegetação equatorial exuberante nem sinais de sultanatos hostis. Vamos passando caprichosamente para um e outro lado do rio por pequenas pontes, sempre de variada feição, deixamo-nos enfeitiçar pelos reflexos coloridos da iluminação feérica, admiramos pinturas murais que evocam cenas históricas – como a chegada de navios estrangeiros a Malaca -, transitamos pelo silêncio de Kampung Morten, um casario de madeira, de factura tradicional malaia, que se assemelha a uma aldeia tragada pelo avanço da cidade, pisamos passadiços entre folhagens tropicais e um ou outro grande lagarto fugaz, seguindo serpentinas fluviais que apetece que durem até ao amanhecer. Claro que podemos fazer a subida do rio de barco, como turistas de selfies e algazarras, a horas decentes e próprias, mas nunca chegaríamos até onde o cenário é já inteiramente verde e campestre e as casas, dispersas entre a vegetação tropical, expõem alpendres malaios e portas e janelas abertas de par em par por causa do clima. E depois, na noite seguinte, podemos fazer o caminho inverso até à embocadura, por onde um dia terão entrado navios e navios carregados de especiarias e de piratas, e entre eles os de António de Faria e de Fernão Mendes Pinto, nesse tempo que foi de conflito e ao mesmo tempo de gestação desta Malaca mestiça, extraordinária encruzilhada de povos e culturas.
