Após décadas de opressão por parte do Império Romano, liderou uma marcante revolta celta reunindo a maior força até então enfrentada por Roma em batalha. Chamava-se Boudica e foi rainha da tribo britânica dos icenos.
Uma vez que o povo celta não mantinha registos escritos, a informação que sobre esta personagem nos chega aos dias de hoje é oriunda de fontes romanas, sabendo-se que Boudica terá nascido nas primeiras décadas depois do nascimento de Cristo. Desconhece-se qual terá sido o local do seu nascimento, embora se saiba ter-se tornado a rainha da tribo icena que habitava a região correspondente a Norfolk, em Inglaterra, após casar com o rei Prasutagus, com quem teve duas filhas.
A derradeira fronteira romana
Ora, cem anos antes de Boudica nascer, já Roma tentava conquistar a Britânia, que encaravam como a derradeira fronteira, cheia de mistérios e de riquezas. No entanto, ao longo de todo este século, as tentativas romanas de invadir a ilha haviam falhado, sendo sempre repelidas pelos seus aguerridos habitantes. Os celtas eram um povo temido e audaz; os seus homens entravam em combate montados em carros de guerra, completamente nus e com os cabelos pintados de branco com cal. Por volta de 43, o imperador Cláudio enviou uma força de 40 mil homens para invadir a ilha e estes conseguiram finalmente estabelecer uma posição a sul do território que actualmente conhecemos como Inglaterra. Uma a uma, as tribos celtas foram sendo derrotadas. Percebendo que o fim se aproximava, o rei dos icenos, Prasutagus, que já combatia os romanos há 20 anos, decidiu aceitar uma proposta para tentar salvar o seu povo. Se estabelecesse um acordo poderia manter o título e o reino. Se não o fizesse, o seu povo seria massacrado. Prasutagus garantiu que Roma poupasse os icenos e durante algum tempo a tribo chegou mesmo a prosperar. O comércio com os romanos elevou a qualidade de vida da população e parecia que o acordo beneficiava ambas as partes, mas quando Prasutagus morre, em 60, deixando as suas terras em testamento às duas filhas e ao imperador romano Nero numa tentativa de manter os romanos satisfeitos, tudo se alterou. Ao contrário de Cláudio, Nero exigia o domínio absoluto e os seus soldados receberam instrução para saquear as terras, acabando por invadir a casa real e capturar Boudica e as suas filhas. Para derrotarem definitivamente a vontade e a resistência dos icenos, os romanos organizaram um espectáculo público no qual humilharam Boudica e as suas filhas chicoteando a mãe e violando as raparigas, na esperança que o povo se rendesse. Embora feridas e arrasadas, Boudica e as jovens sobreviveram. Contudo, à medida que recuperava fisicamente, Boudica começou a alimentar uma raiva crescente, decidindo eliminar todos os romanos. Roma teria de pagar pelos desprezíveis actos ali praticados.
Uma líder inesquecível
De acordo com o historiador romano Tácito, Boudica terá começado a reunir as tribos celtas mais poderosas, formando deste modo um exército e contando-lhes a sua história, defendendo muitas vezes que não havia riqueza alguma que suplantasse o valor da liberdade. O desrespeito que Roma demonstrara por Boudica tornou-se um insulto colectivo a todos os celtas e a verdade é que o apelo da líder inspirou milhares a erguer-se contra Roma. Em pouco tempo, havia de 120 mil celtas provenientes de várias tribos prontos a entrar em guerra e a seguir Boudica.
Do historiador Dión Cássio herdámos a única descrição física de Boudica, escrita mais de cem anos após os acontecimentos e possivelmente baseada em testemunhos entretanto perdidos. Pinta o retrato de uma líder temível: muito alta, de aspecto aterrador, por vezes de lança em riste, olhar feroz e voz áspera. “Tinha longos cabelos cor de mel que lhe desciam até às ancas, um grande colar dourado ao pescoço, uma túnica multicolorida e um manto espesso preso com um broche. Era assim que conduzia o seu povo para a guerra.”
Ser morto por um celta era um destino temível.
O primeiro alvo dos celtas foi o posto militar romano de Camulodunum. Os veteranos romanos que lá viviam eram acusados de tratar os locais com brutalidade, chegando a obrigá-los a construir um enorme templo em honra do imperador Cláudio. Representavam, assim, o alvo perfeito para o primeiro ataque de Boudica. Quando a sua colossal força invadiu a cidade matou todos os que encontrou sem fazer quaisquer prisioneiros. Um pequeno destacamento de 200 soldados romanos tentou defender a cidade, mas foi rapidamente derrotado. Apenas dois escaparam com vida. Boudica avançou, então, para sul, até Londinium (Londres), um novo assentamento romano que rapidamente se tornara um importante centro comercial. Os cidadãos mais ricos e o exército romano abandonaram a cidade antes da sua chegada, deixando para trás a população absolutamente indefesa. A fúria de Boudica atingiu o seu auge em Londinium, onde as suas tropas mataram e torturaram brutalmente todos os que encontraram, cometendo atrocidades semelhantes às dos romanos e reduzindo a cidade a cinzas. As forças de Boudica avançaram depois para norte e destruíram também Verulamium. No total, arrasaram três das mais importantes cidades da Britânia romana, matando 70 a 80 mil romanos. Nero ficou assustado com a sede de vingança de Boudica e chegou a considerar abandonar a Britânia, mas recorreu ainda a Suetónio Paulino, um comandante que escapara de Londinium e que preparava um contra-ataque. Com dez mil homens, planeava enfrentar os cerca de 230 mil celtas que, segundo Dión Cássio, marchavam agora junto a Boudica.
A queda de uma heroína
Boudica não possuía a experiência militar de Suetónio, que escolheu um local estratégico, rodeado por florestas tanto nos flancos como na retaguarda, o que dificultaria um cerco celta. Segundo Tácito, antes da batalha Boudica proferiu um último discurso aos seus homens, montada, ela própria, num carro de guerra. Com as filhas a seu lado e perante 230 mil rebeldes afirmou: “Não é como mulher de sangue nobre que vingo a minha liberdade perdida, o meu corpo açoitado e a pureza das minhas filhas violada, mas como uma entre o povo. Pensem naquilo por que lutam e em quantos somos. Venceremos esta batalha ou morreremos. Eu, mulher, estou disposta a isso. Os homens que fiquem na escravidão se o quiserem!”
No entanto, a força que enfrentavam era das mais disciplinadas e bem equipadas do Mundo. Os romanos avançaram em formação de cunha, com melhores armas, armaduras e treino. Empurraram os celtas para trás, mas quando a cavalaria romana entrou em acção deu-se o massacre, morrendo quase 80 mil bretões. Soçobraram apenas 400 romanos e também Boudica, mas não por muito tempo. Não existe consenso se se terá suicidado com veneno ou se terá morrido de doença. Seja como for, de acordo com a narrativa, terá sido sepultada pelo seu povo com honras de guerreira.
O orgulho e a força da liderança feminina
Ao derrotar Boudica, Roma consolidou o domínio sobre o sul da Britânia e reconstruiu Londinium, que viria a tornar-se uma das cidades mais importantes da história. A lenda de Boudica espalhou-se, no entanto, por todo o território, inspirando as tribos do norte a manter-se hostis a Roma. Sessenta e um anos mais tarde, o imperador Adriano ordenava a construção de uma muralha para separar os romanos dos “bárbaros”, pondo deste modo fim à expansão romana. A memória de Boudica e das suas filhas ergue-se hoje no coração de Londres, junto ao Parlamento, sob a forma de uma estátua que recorda o que significa ter um coração britânico, símbolo eterno de resistência, liberdade e coragem. Boudica representa mais do que uma simples líder militar. A sua figura encarna o orgulho de um povo, a dor da injustiça e a força da liderança feminina em tempos de crise. Apesar da sua derrota, a memória da sua luta sobreviveu aos séculos, e a sua história continua a inspirar obras literárias, artísticas e políticas até aos dias de hoje.
