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Kuala Lumpur

Kuala Lumpur

Ao encontro dos deuses na capital da Malásia

Um país cujo tecido social é constituído por três significativas comunidades étnicas e culturais só podia ter uma capital como Kuala Lumpur, uma das cidades mais multiculturais do planeta. A diversidade de crenças gerou uma notável plêiade de templos e sítios religiosos.

 

Texto e fotos Humberto Lopes

 

Os malaios são os da terra, se faz sentido tal afirmação num planeta de contínuas migrações, onde se fixou o conceito budista de impermanência e onde um certo poeta declarou “que todo o mundo é composto de mudança”. Os chineses estão por ali também há muito tempo, pelo menos desde o século XV, já então ocupados com comércio, e foram chegando depois em vagas migratórias mais significativas a partir do século XIX, edificando uma próspera sociedade que, dizem, poderá ter inspirado, juntamente com Singapura, a abertura da China projectada por Deng Xiao Ping nos anos 1970. São hoje 23% da população e maioritariamente budistas e taoistas. Os indianos são descendentes das comunidades tâmil que os britânicos levaram do sul da Índia para trabalharem nas plantações de borracha e nas minas de estanho. Mais coisa menos coisa, cada um dos três grupos representa em alguns dos treze estados federais do país entre um quinto e um terço da população, mas no cômputo geral a maioria é malaia e muçulmana (66%) e a comunidade indiana é a de menor dimensão, ainda que culturalmente seja bastante expressiva.

Por todo o país a sociedade malásia (a palavra teve que ser inventada para adjectivar esta tão matizada realidade cultural) reflecte esse mosaico espantoso. Atravessar a rua pode parecer muitas vezes que estamos a mudar de país, tal a variedade de gentes, de modos, de hábitos, de comidas, de templos, de práticas religiosas, toda essa variedade em convivência permanente nos mais ínfimos pormenores da vida quotidiana. A Malásia é um blueprint das sociedades humanas do futuro, ou, por outras palavras, põe-se a pensar o viajante, o Sudeste Asiático há muito vem realizando o destino universal de miscelânea de povos e culturas – não obstante a ameaça do actual e aparente contraciclo.

Kuala Lumpur não é apenas, pois, uma metrópole contemporânea de arranha-céus e urbanismo arrojado. Da Chinatown e dos seus templos vizinhos – taoistas e hindus – à periferia das Batu Caves, da velha Masjid Jamek à Mesquita Rosa, nos quarteirões modernos e reluzentes de Putrajaya, área federal contígua, do grande templo budista de Thean Hou, assente numa colina onde as formas e as cores dos templos chineses contrastam com as linhas racionais dos arranha-céus ao fundo, a capital da Malásia acolhe um bom punhado de lugares religiosos que celebram a diversidade de crenças que atravessa a sociedade malásia. Uma parte deles, a de que falamos aqui, representa uma impressionante polifonia de deuses.

 

Um templo taoista e milhares de deuses do outro lado da rua

Na Jalan Tun H S Lee, uma rua situada num dos flancos da Chinatown, temos o que pode ser um bom começo deste itinerário. Aí estão dois templos históricos. O primeiro, o Guan Di, é um dos mais antigos da cidade e – ironia ou paradoxo – sobre ele nem caberia falar em deuses: é um templo taoista. De arquitectura clássica influenciada pelas tradições do sul da China, nomeadamente das províncias de Guangdong e Guangxi, o Guan Di reproduz as atmosferas características dos templos taoistas. Pairam no ar novelos de fumo, queimam-se maços de papéis num velho forno de cor vermelha (o tom dominante em todo o templo, que se faz cobrir por telhados cor de jade), acendem-se velas e paus de incenso, crentes – que podem ser taoistas, budistas ou confucionistas – erguem as mãos acima do rosto em gestos de oração e veneração dos antepassados. Não muito longe do Guan Di, também à beira da Chinatown, existe um outro templo taoista, o Sze Yah; é o antigo templo chinês da cidade e nele reconhecemos as mesmas atmosferas.

Antepassados. A eles muitos templos são dedicados e este segue esse costume, a que se juntam outras características paradigmáticas de como as comunidades chinesas da região mantêm há séculos ligações culturais incorruptíveis com a mãe China. O templo é dedicado a um general do século III, Guan Yu, figura que encarna qualidades muito apreciadas (era uma espécie de Robin dos Bosques e pugnava por justiça social e coisas que hoje parecem estar cair em desuso, como lealdade, compaixão, solidariedade, empatia, etc.), e tem por essa via profundos laços com a literatura chinesa, já que a vida e as aventuras do militar surgem descritas (numa bem chinesa narrativa entre a historiografia e a ficção) no famoso Romance dos Três Reinos, escrito no século XIV por Sanguo Yanyi.

Do outro lado da rua, um pouco mais adiante, um outro importante templo, mas desta vez dedicado a uns bons milhares de deuses – um templo hindu, obviamente, com um belo gopuran repleto de figuras esculpidas, em arranjo simétrico, à semelhança das grandes torres que recebem fiéis e peregrinos nos lugares religiosos do hinduísmo no sul da Índia. Sinta-se o viajante autorizado a pôr-se com delírios de comparações e evocações de outros lugares, outros tempos e templos. Como a igreja de Santa Maria Tonantzintla, no México, e o seu barroco colorido, retocado por uma ingenuidade indígena, dizia Aldous Huxley.

Este Sri Maha Mariamman, o mais antigo templo hindu de Kuala Lumpur é também um dos lugares da capital da Malásia (tal como as Batu Caves, de que falaremos adiante) susceptíveis de nos fazer evocar as notas que Octavio Paz escreveu sobre as religiões na Índia: no espectro de crenças religiosas da Malásia, ocorre a mesma oposição, e convivência, entre uma grande religião monoteísta, o Islão, que é a religião dominante no país, e o politeísmo hindu. Sobre esta realidade complexa comentou o escritor mexicano, atento observador da cultura indiana ao longo dos onze anos em que foi embaixador em Delhi, que na Índia ocorria “… o monoteísmo mais extremo e rigoroso frente ao politeísmo mais rico e matizado (…)”. Octavio Paz sugeria que “entre o Islão e o hinduísmo há não só oposição, mas também incompatibilidade (…). Mínimo de ritos entre os muçulmanos; proliferação de cerimónias entre os hindus”. E fazia notar que “o hinduísmo é um conjunto de cerimónias complicadas e o Islão é uma fé simples e clara.

O interior do Sri Maha Mariamman, o mais antigo templo hindu de Kuala Lumpur – e na Malásia um dos pontos fulcrais do grande festival do Thaipusan, quando as ruas do centro da capital se enchem de multidões e dos emblemáticos carros de Jagrená -, é, tal como acontece em muitos outros templos semelhantes, uma prolixa galeria de figuras, representações coloridas de entidades divinas que protagonizam infinitas histórias que as aproximam de uma natureza humana. Sem exagero: lembremos aquelas narrativas de amores e ódios, ciúmes, vinganças, traições, invejas, etc. que enchem, entre lances épicos e mesquinhez, as páginas do Mahabharata. A propósito desta pluralidade de figuras divinas, Octavio Paz sublinhava que “o monoteísmo islâmico afirma de modo categórico a predominância do um: um só Deus, uma só doutrina e uma só irmandade de crentes. (…) O hinduísmo aceita a pluralidade de deuses mas também a de doutrinas (darsanas), seitas e congregacões de fiéis”.

O hinduísmo é diverso, pois – e as ambiências dos templos reflectem essa diversidade. Não estranhe o viajante, enfim, depois de deixar os sapatos à entrada, se o convidarem para uma refeição e acabar por assistir a um recital de trombetas e tambores ou a um qualquer ritual: os templos hindus, de resto como os taoistas, são tanto espaços de convivência social quanto lugares de solene e circunspecta oração.

 

Evocações tailandesas, birmanesas e cingalesas

Em Kuala Lumpur, como no Sudeste Asiático (e haverá no Mundo algum lugar em que assim não seja?), quase tudo parece ter uma flagrante articulação com alguma substância cultural de origem “externa” – e não é assim, afinal, com os muito populares “portuguese egg tarts”? Desandemos, pois, para um templo “tailandês” singelo e relativamente recente, que reúne atmosfera e curiosidades históricas – além de estar a salvo dos magotes turísticos que pululam à volta da Chinatown.

O Wat Chetawam é um templo budista e fica um pouco afastado do centro, em Petaling Jaya, mas acessível por metro, que tem uma estação ali perto. Com influências tailandesas, o complexo está cheio da escultura religiosa habitual, incluindo um Buda reclinado e um Buda negro.

O Wat Chetawam passa por ser o único da pequena comunidade birmano-malaia que se refugiou na Malásia há algumas décadas e consta que na sua fundação pesou a ideia de se encontrar um abrigo para umas certas relíquias budistas escapadas também de Myanmar.

O lugar é excelente para observar a verdadeira vida de um templo, as rotinas, os simples e discretos gestos dos crentes – os mesmos, de resto, a que assistimos noutros templos, até nos muito frequentados por turistas de trânsito rápido em busca de selfies. Os crentes pouco parecem importar-se, realmente, com tal agitação – é admirável a indiferença e a paciência com que suportam os atrevimentos turísticos…

No que concerne a ligações entre comunidades étnicas e religiosas, a história da fundação do único templo cingalês de Kuala Lumpur revela alguma exemplaridade. O Maha Vihara, um complexo budista (theravada) em Bricklfields (Little India), foi criado ainda no tempo da colonização britânica e sabe-se agora, embora na altura o facto não tenha sido tornado público, que um dos contribuintes para a sua edificação foi a comunidade chinesa budista. Não é dos mais impressivos no plano estético, mas é naquele recanto de Brickfields que se desenrola uma boa parte do festival Wesak – o popular e famoso festival budista das lanternas.

 

Das Batu Caves à colina onde o ano novo chinês se ilumina

E com isto chegamos aos dois últimos templos deste itinerário. Das Batu Caves, um misto de lugar de peregrinação e atracção  turística, certamente se poderá dizer que estas enormes grutas nos arredores de Kuala Lumpur, que acolhem centenas e centenas de figuras de deuses e deusas, maiores e menores, e milhares de visitantes diariamente, deve ser o complexo hindu da Malásia que mais gente de outras crenças recebe, incluindo gente muçulmana, não só desafiando as constatações e reflexões de Octavio Paz, mas também sugerindo outros notáveis significados em torno das convivências religiosas do projecto social, cultural e político da Malásia.

As Batu Caves são um complexo de grutas cheio de templos hindus fundado pela comunidade tâmil e dedicado ao deus Murugan, uma divindade muito popular no sul da Índia. Filho de outras duas importantes figuras do infinito panteão hinduísta, Shiva e Parvati, Murugan está representado por uma enorme estátua erguida ao largo do grande escadório que conduz à entrada das grutas e se apresenta sempre povoado por peregrinos a descer e a subir, por uma comunidade irrequieta de macacos e, ultimamente, às vezes, por umas moçoilas figurantes de longos vestidos, chapéus largos e poses de folheto turístico.

E regressamos ao centro da cidade, ao Thean Hou, um templo budista levantado pela comunidade de imigrantes chineses da ilha de Hainan há menos de meio século. É um dos maiores templos budistas (frequentado também por crentes taoistas e confucionistas) de Kuala Lumpur e ponto nevrálgico das celebrações do ano novo chinês na capital da Malásia. É um dos lugares por onde deve passar o roteiro de quem não teme multidões no próximo dia 17 do mês de Fevereiro de 2026, quando se iniciar o ano do cavalo. Mas dada a importância da comunidade chinesa em terras da Malásia e as consequências da miscigenação cultural, as celebrações têm um carácter nacional e podem ser vividas em toda a parte – tal como o cristianíssimo Natal, que na Malásia, país de maioria muçulmana e de religião oficial islâmica, é assinalado com um feriado oficial.

Apesar das diferenças entre as três comunidades que constituem o tecido social e cultural do país, das identidades preservadas em muitíssimos aspectos, é certo que desta convivência cultural e social ocorreram processos de miscigenação que resultaram num património comum celebrado como um tesouro cultural nacional. Eis uma das atracções da Malásia e desta grande metrópole: a possibilidade de fazer desenrolar exercícios permanentes de curiosidade e tentar desvendar os omnipresentes aspectos que testemunham essa extraordinária miscigenação que faz desta parte do Oriente um lugar ímpar.

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