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A explorar o coração da Bolívia

A explorar o coração da Bolívia

De Santa Cruz a La Paz, num total de 2360 km num 4×4

Uma das formas mais singulares, exigentes e gratificantes de descobrir um país consiste em pegar no volante e percorrer as suas cidades, aldeias e paisagens…

Texto e fotos Donnie Sexton

 

ANomadic Road criou uma viagem destas pela Bolívia. Fizémos doze dias ao volante entre Santa Cruz e La Paz, a capital, num total de 2.360 quilómetros. Dia após dia, a rota surpreendeu-nos com novos tipos de estrada — asfalto, caminhos de terra batida e até salinas — revelando panoramas deslumbrantes, habitantes acolhedores e uma cultura vibrante pronta a ser absorvida.

A empresa atrás mencionada organiza expedições para recantos remotos do planeta. O foco está na condução, mas a experiência é enriquecida com alojamentos invulgares, gastronomia de excelência e momentos inesperados ao longo do percurso. Habitualmente são duas pessoas a partilhar a viatura e a condução. No nosso caso, éramos doze viajantes em seis carros: um casal do Dubai, um viajante da Malásia, dois amigos da Dinamarca e a minha grande amiga Terri, do Texas, que me acompanhou na estrada. Estávamos em boas mãos, guiados por dois experientes bolivianos, um mecânico e Venky, o autor da expedição.

 

De Samaipata a Potosí

O primeiro dia foi curto, ideal para nos familiarizarmos com os Nissan Patrol. Instalámo-nos no encantador El Pueblito Hotel, em Samaipata, onde pavões passeavam pelos jardins. As portas dos quartos eram pintadas à mão, cada uma com motivos coloridos. Terminámos o dia com um jantar delicioso acompanhado de vinhos bolivianos e entusiasmados com o que viria a seguir.

O segundo dia trouxe-nos mais desafios: caminhos de terra envoltos numa chuva miudinha que nos conduziu até La Higuera. Para quem aprecia história mundial, foi aqui que o revolucionário marxista Che Guevara foi capturado e morto. A pequena escola onde perdeu a vida é hoje um museu que narra o seu percurso. A região é um destino de eleição para caminhantes que seguem o trilho feito por Che antes de ser capturado.

Seguiu-se Sucre, capital constitucional da Bolívia e sede do poder judicial. Sucre, classificada como Património Mundial da UNESCO, foi colonizada pelos espanhóis em 1538. Os seus edifícios coloniais caiados de branco contam a história da cidade. Imperdíveis são também os mercados, repletos de legumes frescos, de especiarias aromáticas e de artesanato local.

A estrada serpenteante levou-nos até Potosí, outrora detentora da maior mina de prata do Mundo e ainda hoje em atividade. Optámos por visitar a mina Cerro Rico, avançando pelos túneis escuros apenas com a luz dos capacetes. Já no interior, fizemos uma oferenda à Pachamama, a Mãe Terra, para que nos protegesse na continuação da viagem. Passámos a noite no extraordinário Museo Hacienda Cayara, fundado pelos espanhóis em 1557.

 

Na a maior planície salgada do planeta

Prosseguimos por estradas de gravilha e terra batida rumo ao ponto alto da viagem: o Salar de Uyuni, a maior planície salgada do planeta, com 10.582 km². Para lá chegarmos, cruzámos paisagens rochosas pontuadas por vulcões, lagoas e lagos onde bandos de flamingos se alimentavam. Foi um constante prazer observar os lamas com que nos cruzámos ao longo da estrada.

A chegada ao salar (de um branco ofuscante que parecia não ter fim) foi absolutamente impressionante. A planície formou-se após a evaporação de antigos lagos pré-históricos. Calcula-se que contenha cerca de dez mil milhões de toneladas de sal. Para além da extração de sal de mesa, esconde sob a superfície cerca de 70% das reservas mundiais de lítio, metal leve e muito procurado para baterias de computadores, smartphones e carros elétricos.

O salar ofereceu-nos a emoção de circular a mais de 150 km/h em linha reta, até chegarmos ao local do almoço. À nossa espera estava uma mesa magnífica, montada sob toldos, onde nos serviram pratos quentes e frios absolutamente deliciosos. Houve tempo para descansar; alguns fizeram uma pequena sesta, outros caminharam até uma ilha próxima coberta de cactos gigantes. Ficámos até à noite para assistir ao surgir da Via Láctea — um momento mágico.

Dormimos no Cristal Samaña, na orla do salar, um alojamento singular construído inteiramente com blocos de sal. No dia seguinte voltámos ao salar ao amanhecer, desta vez sobre uma fina camada de água com cerca de dez centímetros, criando reflexos perfeitos como espelhos.

 

Subir a 5.125 metros de altitude para descer até La Paz

Deixando para trás o Salar de Uyuni, avançámos em direção a La Paz. Ao longo dos quilómetros, a vida rural desenrolou-se diante de nós, com pequenos agrupamentos de casas e campos agrícolas. Passámos uma noite acampados num terreno agrícola, animados por vinho, boa disposição e um jantar memorável ao redor da fogueira, antes de recolhermos às tendas.

A etapa final levou-nos por uma das estradas de terra mais exigentes, através das íngremes montanhas Araca, nos Andes. Entre picos rochosos e glaciares atingimos o ponto mais alto da viagem, a 5.125 metros, antes de descermos para La Paz. Pelo caminho, cruzámo-nos com um grupo de mineiros que extraíam prata à superfície, em plena montanha. Parámos para conversar e ofereceram-nos um pequeno fragmento daquele metal.

À chegada a La Paz, sentimos um travo de tristeza por sabermos que a aventura partilhada estava a terminar. Ao longo da viagem, ficámos alojados em locais muito distintos — de hostels simples a tendas e hotéis de quatro estrelas. A gastronomia celebrou os produtos locais – feijão, batata, milho, arroz, quinoa e proteínas como frango, vaca e lama. Juntos, penetrámos no coração deste extraordinário país sul-americano numa viagem que despertou todos os sentidos e deixou memórias duradouras.

 

Agradecimentos: Nomadicroad.com

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